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Biblioteca de Artigos

Este artigo integra a série “Compreender a Gestão na Prática” da CCDM, uma coleção de textos curtos que propõem uma visão clara e objetiva sobre a forma de compreender a gestão no dia a dia.
Não se foca em dados técnicos, siglas ou fórmulas, mas em perspetivas racionais e reais sobre o que efetivamente acontece nas empresas.
O objetivo não é formular teoria, é ajudar a ver e a entender, com clareza, a prática.

A TESOURARIA QUE BLOQUEIA A GESTÃO

Tese Central

Quando a tesouraria se torna o centro da gestão, a empresa deixa de evoluir — porque a falta de previsibilidade financeira não bloqueia apenas operações, bloqueia o pensamento.

Artigo Completo

A tesouraria é uma função vital em qualquer empresa. Mas, por vezes, torna-se mais do que isso: torna-se o centro do negócio. E, quando isso acontece, a gestão deixa de gerir — passa a reagir. Passa a viver em função de prazos, recebimentos e pagamentos, e perde todo o espaço mental que deveria estar dedicado ao pensamento, à estratégia e ao futuro.

Quando não há dinheiro disponível — sem previsão de recebimento — tudo o resto deixa de acontecer. O gestor fica preso no ciclo curto da sobrevivência: espera para receber, paga para continuar, e repete o processo para não colapsar. O resultado é um paradoxo silencioso: a empresa trabalha sem parar, mas não sai do mesmo lugar.

Muitos empresários vivem neste modo há anos, apenas a controlar pagamentos e recebimentos. Mas essa não é a essência da gestão — é só uma das suas vertentes. Quando o gestor reduz tanto a sua função, a empresa perde visão. A cabeça que devia pensar o futuro fica ocupada a resolver o presente - e o presente, assim, nunca passa.

Na prática, todos os dias se transformam numa urgência em resolver pagamentos pendentes — e nunca há espaço para o que pode ser pensado depois. Situação que se agrava porque, para o gestor, a falta de pagamento afeta temas sensíveis: má gestão, incumprimento, reputação, responsabilidade - e isso agrava a urgência e a tensão.

Assim, o verdadeiro dano não está apenas na falta de dinheiro, mas na ocupação mental que ela provoca. Viver em permanente expectativa — sem saber se há entrada ou quando haverá — consome mais energia do que a própria escassez. Porque a incerteza transforma cada dia num exercício de improviso, e o improviso permanente transforma a gestão numa sequência de remendos.

A saída não está em esperar que a tesouraria melhore, mas sim em adaptar a expectativa, ajustar o processo, e garantir previsibilidade. Porque, o mesmo problema, se planeado, tem mais opções de solução — permite negociar, avaliar e escolher o caminho mais adequado, em vez de apenas o mais imediato. E, mesmo uma previsão imperfeita oferece mais controlo do que a total ausência de informação.

O planeamento, mais do que resolver, liberta espaço mental: coloca o problema no calendário, tira-o da cabeça e devolve à gestão o seu lugar natural — pensar para além do ciclo diário.

Gerir é idealizar, dirigir e decidir. A tesouraria é apenas o motor que permite que tudo isso aconteça. Mas quando o condutor precisa de ser o motor, não fica ninguém ao volante e a empresa deixa de ter direção. A solução não é apenas financeira; é estrutural. Significa criar previsão, mapear cenários, segmentar riscos e devolver método ao dia-a-dia.

Quando a tesouraria deixa de dominar a agenda, o pensamento volta a circular. O gestor volta a ter tempo para o que realmente muda a empresa: compreender o mercado, ajustar o modelo, melhorar o produto, desenvolver pessoas, processos e equipamentos. A tesouraria deve continuar a ser controlada pela gestão, mas nunca a gestão controlada pela tesouraria.

No fim, a falta de dinheiro é um problema financeiro, mas não conseguir agir enquanto se espera por ele é um problema de gestão. E este é, muitas vezes, o mais destrutivo. Porque não bloqueia apenas contas — bloqueia o pensamento. E uma empresa que deixa de pensar, deixa realmente de progredir.

Em:

Por:

Francisco Centeno de Mendonça

DISCLAIMER:
Conteúdo original do autor e da CCDM, fruto de raciocínio e pensamento humano.
Qualquer intervenção de inteligência artificial pode ter ocorrido apenas como apoio técnico — estrutural ou linguístico —, nunca como origem de ideias, lógica, exemplos, raciocínio ou deduções.
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