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Este artigo integra a série “Compreender a Gestão na Prática” da CCDM, uma coleção de textos curtos que propõem uma visão clara e objetiva sobre a forma de compreender a gestão no dia a dia.
Não se foca em dados técnicos, siglas ou fórmulas, mas em perspetivas racionais e reais sobre o que efetivamente acontece nas empresas.
O objetivo não é formular teoria, é ajudar a ver e a entender, com clareza, a prática.
A EMPRESA QUE PERDE O DINHEIRO QUE NÃO TEM
Tese Central
Por trás da falta de liquidez pode esconder-se um problema económico. Identificar esta situação — e compreender a facilidade com que ocorre — é o que impede a empresa de cair na armadilha de perder valor sem perceber.
Artigo Completo
A falta de dinheiro, na vida pessoal, tem uma origem fácil de identificar: ou se gasta mais do que se ganha, ou se ganha menos do que se precisa. No mundo empresarial, não é assim tão direto. Uma empresa pode vender bem, ter margem positiva e, mesmo assim, estar constantemente sem liquidez. Muitas vezes, o motivo é apenas este: paga antes de receber. Há um desfasamento de prazos. A empresa precisa do dinheiro agora, mas o dinheiro ainda não entrou. É um problema financeiro, não económico.
Há negócios em que esta realidade é prevista desde o primeiro dia - mas há outros que não: a situação surge de forma gradual, como consequência natural do crescimento, do aumento de volume ou da entrada de clientes públicos e institucionais com prazos longos.
O gestor começa por encontrar soluções pontuais mas, com o passar do tempo, a exceção passa a ser rotina. Assume-se que a empresa paga antes de receber e que a falta de dinheiro é estrutural, porque resulta diretamente dessa condição - e aqui nasce o verdadeiro risco. As soluções extraordinárias passam a ser tratadas como normais: usa-se dinheiro próprio, recorre-se ao banco, gerem-se prazos com fornecedores. Sempre com a convicção de que a empresa só as utiliza porque ainda não recebeu. Mas nem sempre é assim.
A pressão diária da tesouraria ocupa a mente do gestor. Entre pagamentos, recebimentos, datas críticas e pequenos equilíbrios, o foco desloca-se para o imediato. E sempre que surge alguma folga, o impulso natural é dedicar-se ao crescimento - porque é disso que sente falta enquanto está absorvido pelos problemas de liquidez.
Volta-se para a área comercial, cria novas oportunidades de negócio e - sempre convicto de que a falta de dinheiro resulta apenas dos prazos de recebimento - procura soluções que lhe permitam libertar-se da tesouraria e focar-se no crescimento: cashflow rápido; crédito; novas fontes de entrada imediata. Mas, com isso, sem perceber, afasta-se da análise económica que revela se o negócio está realmente a criar ou a perder valor.
Pode ser difícil de compreender, especialmente para quem nunca assistiu a esta situação, mas é um fenómeno frequente — e o valor está precisamente em perceber a facilidade com que acontece. A solução temporária, como factoring ou uma livrança a 90 dias, dá lugar a soluções fixas: uma conta caucionada, um descoberto autorizado. Com o tempo, a utilização deixa de ser pontual — o crédito que devia ser esporádico, está sempre utilizado de forma permanente. Até ao dia em que se torna manifestamente insuficiente. É muitas vezes, nesse ponto, que o gestor recebe o sinal de alerta e tenta perceber o que se passa. Mas, nessa altura, já aconteceu.
Percebe-se o verdadeiro problema: por trás da falta de liquidez, existe uma perda real de valor — e ninguém a viu. A empresa está sem dinheiro porque ainda não recebeu, sim. Mas também está a perder dinheiro. O problema financeiro, mais visível, acaba por esconder o económico, que é mais grave e menos evidente.
O dia a dia vive-se no imediato, mas é o resultado que determina o sucesso. Problemas de tesouraria resolvem-se com dinheiro, mas problemas económicos resolvem-se com intervenção. Exigem reestruturação e alinhamento. E quanto mais cedo forem identificados, maior é a probabilidade de poderem ser corrigidos com facilidade.
A culpa não é só do gestor. É também do contexto, que empurra para o imediato e cria a sensação de que a falta de dinheiro tem sempre a mesma origem. Mas é possível criar método para evitar precisamente que o contexto comprometa a leitura do gestor. É esse método que devolve clareza e impede que a urgência possa esconder o que realmente importa ver.
Em:
2 de outubro de 2025
Por:
Francisco Centeno de Mendonça
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